Armar a sociedade, sitiar a juventude: violência, racismo e socioeducação

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Da mira ao sistema socioeducativo, adolescentes e jovens negros seguem sendo empurrados para um circuito marcado pela violência armada, pela ausência de direitos e pela punição.

Há palavras que, de tanto serem repetidas, acabam escondendo mais do que explicam. “Segurança” é uma delas. Em seu nome, amplia-se a circulação de armas, endurecem-se políticas de confronto e se consolida a ideia de que mais força significaria mais proteção. Mas, quando se observa quem morre, quem é baleado, quem tem a rotina atravessada pelo medo e quem chega ao sistema socioeducativo, essa promessa se desfaz. O armamento da sociedade não protege a juventude. Ele a encurrala.

Esse cerco se impõe nos territórios, na circulação, na escola, na convivência e nas expectativas de futuro. Para adolescentes e jovens, sobretudo negros e periféricos, a experiência cotidiana passa a ser moldada por tiros, abordagens violentas, luto e vigilância. Ao mesmo tempo, o que falta em renda, educação, trabalho e proteção social costuma sobrar em repressão. Nesse contexto, a socioeducação aparece não como ponto de partida, mas como parte de uma trajetória antes marcada pela desigualdade e pela violência armada.

Segundo o Atlas da Violência (2025), no Brasil, a morte violenta segue como principal causa de óbito entre jovens de 15 a 29 anos. Em 2023, 34% das mortes dessa faixa etária decorreram de homicídios. No mesmo ano, 47,8% dos 45.747 homicídios registrados no país vitimaram jovens desse grupo etário, totalizando 21.856 vidas interrompidas e uma média de 60 jovens assassinados por dia. Ao longo de onze anos, entre 2013 e 2023, foram 312.713 jovens assassinados no Brasil.

Ainda de acordo com o Atlas, as armas de fogo ocupam lugar central nesse cenário. Entre 2013 e 2023, os homicídios de jovens resultaram na perda de 14.788.282 anos potenciais de vida, e 12.069.987 desses anos perdidos decorreram de homicídios cometidos com armas de fogo, o equivalente a 81,6% do total. O dado ajuda a dimensionar o problema para além da contagem de mortes: trata-se de tempo de vida retirado, projetos interrompidos e vínculos rompidos em escala contínua.

Também entre crianças e adolescentes o quadro é grave. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 apontou crescimento de 3,7% nas mortes intencionais de crianças e adolescentes. Já o Atlas da Violência 2025 informa que, entre 2013 e 2023, foram assassinadas 2.124 crianças de 0 a 4 anos, 6.480 crianças de 5 a 14 anos e 90.399 adolescentes de 15 a 19 anos. Números como esses tornam difícil sustentar a ideia de que a expansão das armas convive com qualquer projeto consistente de proteção da infância e da adolescência.

O recorte racial, etário e de gênero mostra quem suporta o peso maior desse processo. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, 91,1% das vítimas de mortes violentas eram homens, 79% eram negras, 48,5% tinham até 29 anos e 73,8% morreram com armas de fogo. A violência armada, portanto, não se distribui de forma aleatória. Ela atinge com mais força corpos e territórios já expostos a outras formas de desproteção.

O papel do Estado nessa dinâmica também precisa ser enfrentado. Em 2025, o Instituto Fogo Cruzado registrou 5.846 tiroteios, que deixaram 5.465 pessoas baleadas, sendo 3.781 mortas e 1.684 feridas. Do total de tiroteios mapeados, 33% ocorreram durante ações policiais, acima dos 29% registrados em 2024. No mesmo período, as disputas entre grupos armados cresceram 15%, as chacinas policiais aumentaram 24%, chegando a 62 episódios, e o número de mortos nessas chacinas saltou 101%, passando de 172 para 346 pessoas.

Esses números colocam em xeque a fórmula que associa mais confronto a mais segurança. O aumento da letalidade não conteve a expansão dos grupos armados nem reduziu de modo consistente os impactos da violência sobre a população. O próprio Relatório Anual Fogo Cruzado mostra que, embora o número de tiroteios tenha caído 14% em 2025, o número de vítimas de balas perdidas cresceu 11% e o de crianças e adolescentes baleados subiu 1% . Em outras palavras, a permanência desse modelo segue impondo risco alto à vida cotidiana.

É desse ambiente que muitos adolescentes chegam ao sistema socioeducativo. Eles não entram nele apartados do mundo, mas vindos de territórios onde a política pública costuma ser insuficiente e a presença armada é constante. Por isso, pensar a socioeducação sem considerar a violência que antecede a medida é tratar o efeito como se fosse origem.

Os dados do Levantamento Nacional do Sinase 2025 ajudam a situar esse debate. Entre os adolescentes em medida socioeducativa, 18,1% são pretos e 54,8% são pardos, somando 72% de adolescentes negros. A composição racial do sistema não decorre do acaso. Ela acompanha o padrão mais amplo de seletividade que marca tanto a violência letal quanto o controle penal no Brasil.

O mesmo levantamento aponta que 36,5% das famílias desses adolescentes vivem com rendimento total de até dois salários mínimos, e 10% sobrevivem com menos de um salário mínimo. Em 49,7% dos casos, a mãe aparece como principal responsável pelo adolescente. Esses dados situam a Socioeducação dentro de um quadro mais amplo de precariedade material, sobrecarga feminina e acesso desigual a direitos básicos.

Quando se olha para os atos infracionais, a conexão com esse contexto ganha contorno mais nítido. O Sinase 2025 registra 31,7% dos adolescentes em cumprimento de medida por roubo e 27% por tráfico de drogas. Esses percentuais pedem leitura cuidadosa. Não servem para reforçar estigmas, mas para pensar como mercados ilícitos armados se expandem justamente onde o Estado falha em garantir direitos, oportunidades e proteção.

A exclusão do trabalho e da formação profissional compõe esse quadro. Segundo o Sinase 2025, 81,8% dos adolescentes não estão inseridos em nenhuma atividade laboral remunerada, e 37% não participaram de nenhuma atividade de profissionalização. Isso ajuda a compreender o tamanho da distância entre o discurso da responsabilização individual e as condições concretas oferecidas a esses adolescentes. Quando trabalho, renda e qualificação não se apresentam como possibilidades reais, outros circuitos passam a ocupar esse espaço.

O impacto do armamento da sociedade, portanto, não se resume ao aumento das mortes. Ele reorganiza trajetórias, fortalece economias ilícitas, amplia a presença do medo e sustenta uma lógica em que determinados adolescentes são vistos como perigosos, e por tanto, alvos de contenção. Nesse percurso, a Socioeducação corre o risco de operar menos como ruptura e mais como continuidade de um processo anterior de exclusão e violência.

Não há como defender uma socioeducação comprometida com direitos sem enfrentar esse cenário. Também não há como falar em proteção integral enquanto adolescentes negros seguem expostos à morte armada, à criminalização e à punição desde muito antes de qualquer medida. Se o Estado falha em assegurar escola de qualidade, renda, trabalho protegido, profissionalização e presença territorial de cuidado, mas comparece com armas, operações e internação, a mensagem política transmitida é inequívoca.

Armar a sociedade, no Brasil, significa estreitar o espaço de vida da juventude. Significa aprofundar um regime de medo e ampliar a incidência da violência sobre quem já vive sob maior vulnerabilidade. Significa ainda empurrar para o sistema socioeducativo adolescentes que antes já haviam sido afastados da proteção social.

Romper esse ciclo exige outro caminho. Exige enfrentar a letalidade armada, o racismo estrutural e a lógica que substitui a política pública por repressão. Exige investir em escola, renda, trabalho protegido, profissionalização, fortalecimento de vínculos e políticas territoriais de cuidado. Exige, sobretudo, tratar adolescentes e jovens como sujeitos de direitos, e não como população a ser administrada pela força.

A Coalizão pela Socioeducação reafirma que nenhuma política comprometida com a democracia pode aceitar como normal o cerco imposto a uma geração inteira. Defender a juventude, hoje, passa por recusar a naturalização das armas como resposta social e por recolocar a socioeducação no campo que lhe cabe: o dos direitos, da proteção integral e da possibilidade de futuro.

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